terça-feira, janeiro 31

Raphael Rezende Comenale diz:

dois lados de um mesmo
sonho,
riso choroso
ou
choro risonho?

por onde andar
que ande a passeio,
e ao pensar,
que seja um devaneio.

escreva alguma coisa
ou não diga coisa alguma,
esqueça cada hora,
uma a uma,
uma a uma,
uma a uma,
flua.

Na Tua Rua


Se essa rua
Se essa rua
Fosse minha...
Eu mandava
Eu mandava
Ladrilhar.
Com pedrinhas
Com pedrinhas
De brilhante,
Só pro meu
Só pro meu amor
Passar.


 
Não quis dizer que me lembrava de ti e quando a mãe me perguntou brincando “Quem é mesmo que mora aqui?” eu desfiz o sorriso no rosto dela mentindo que não sabia. Mentindo que não te sabia, e queria enganar a quem?! Deuses!


1º: Passei na tua rua
Foi uma dessas vontades que inexplicavelmente decidem se tornar realidade sabe, depois de muitas visualizações mentais de como a coisa toda se daria e eu chegando e seria tudo muito sorridente e muito natural, nos veríamos velhos amigos depois de tanto tempo e com que bela bagagem pesaria docemente cada palavra dita, cada afeto trocado em sorrisos calmos e muitos gestos de criança, seria ótimo, seria lindo, e talvez depois algum momento de casal. Talvez as fotos em que me pude ver. Talvez tudo o que poderia ter sido. Talvezes, mas uma certeza sim. E por algum truque de música virei a esquerda num caminho que era reto, que era certo, parei.
Toquei e não estavas.
Sentei e dei-me um tempo para te esperar.
Senti muita vergonha das pessoas da rua, pensando serem todos seus amigos ou então tua família chegando à casa. Não eram. Escondi-me atrás de alguns carros. Se alguém gravou poderíamos rir juntos de tudo isso, eu, você, @ gravad@r misterios@. Ainda poderemos, diga-me quem foi! Mandaremos pro Faustão, mandaremos pra internet, ficarei conhecida como a querida medrosa do passado, a timidez da volta dos que não quiseram ir, e por isso até hoje não sabem se foram ou não.
E vi um bilhete dizendo que estavam na pizzaria, te esperando. Não quis atrasar tua família, passou a vontade. Antes da meia hora que tinha me oferecido para esperar-te, levantei-me, fui para casa.

2º: Aparecestes!
Sim, porque eu chamei.
Mas mais do que isso, sim, porque eu estava pronta e não teria vergonha de minhas roupas hippies, de meus quilinhos a mais. Senti-me humana e aí aparecestes, na exuberância quase desumana de tua fisicalidade impecável. Aí tua manifestação mais óbvia da divindade, querido curador. Pitar-te-ia num retrato, num quadro, num pôster, em paredes e paredes, quantas quisesses deixar! Deveríamos fazer fotografias um do outro, seria riquíssimo, e não é preciso! E conversamos e senti aquilo tudo um brilho só, e parece então a mim que se encontrou, e te admiro de um jeito interno que desconhecia até agora. És uma pessoa dentro desse corpo, com quanto alívio sinto essa sua profundidade na distância de uma conversa poética de depois do almoço. Sorri o resto do dia.

3º: Matei uma tal chama
Pensei que devia tentar de novo numa outra noite dessas, era um pouco mais tarde, talvez já tivesse acabado seu horário de exercício, e passei pela rua novamente. Sem pedrinhas de brilhante dessa vez, sem mirabolar finais felizes, sem as concretas projeções futuras e desesperadamente esperançosas como o era até então, a ilusão que o medo da não distância provoca, à ela o fogo. E foi o que me aconteceu, bem em frente à sua casa, um pedaço de tronco ardia. Lá onde eu quis me sentar para te esperar [e agora penso que posso estar confundindo os tempos e esse 3º na verdade foi parte do 1º, mas não me faz diferença nesse momento essa chamada ordem humana que conferimos ao tempo, uma criação imperfeita como tudo que somos nós], lá tinha um pedaço de árvore queimando. A reminiscência do que fomos, do que fui por nós dois, do que quis que fôssemos, do que sonhei mais de uma vez que ‘seríamos’, da imagem de você que morou em mim por mais tempo do que eu gosto de admitir. A verdade talvez seja que eu não quis me dedicar a me curar dessa pessoa que me aconselhava a alvejar o cachorro morto que há tempos já era esse “amor”. Talvez nunca tenha existido esse nós que eu projetei com tamanha ilusão de certeza.
E aí não me sentei. Remexi o tronco até que ele parasse de queimar. Apaguei o fogo. A sensação foi imediatamente de mesmo efeito do antibiótico, e sentia-me livre, curada, as amarras soltas, barco velejante, senti-me indo para casa. Com cada letra disso.

4º: Passeamos
Depois num outro dia qualquer de dia resolvi parar. Esperei que acabasse tua aula de inglês, te esperei pegar a bicicleta, te dei o recado do amigo da caminhonete. Impressionam-me como aí ainda me incomodavam as possíveis quaisquer formas em que pensassem para nos conectar, com o nome que pensariam dar-me em relação em você, com a possibilidade de que se tornassem verdade numa segunda mente aqueles meus desejos de “nós” que permaneceram secretos, que pena. E isso é claro que não fazia sentido nenhum, então saístes e te vi humano! Completamente humano e nu, e carregado de todas as mesmas dúvidas de nossa idade quase gêmea, das prisões que nos prendem a tantos de nós, infratores da verdade com que a criança brinca suave, pegos de primeira surpresa naquele momento em que insistimos em investir-nos de qualquer peso, que por definição não nos pertence. A criança grita por seu direito de nascer em nós. E senti a tua e como a sufocavas. Não soube então o que agora começo a sentir, que há vida além desse ‘nós’ imaginário, que realmente a fraternidade aqui pode acontecer. E que outro bom desejo para esse ano que vem.

Meu Primeiro Amor


É uma Oração

Ora, ora, ora.
Chega de novo esse novo fim de um ano imenso, turbulenta, atropeladamente, me re-atropelando das duas formas mais palpáveis, físicas, e retorcendo, invertendo, basicamente recriando muito do pouco que já armazenei desta vez. Como a prova real de que precisava e preciso para poder continuar minhas somas, minhas multiplicações, minhas contas mágicas de amor. A penitência foi a mais secreta, a mais obscura, a mais profunda prisão, da qual jamais nos divorciaremos completamente até a visita da nobre dama que palita os dentes, como hoje me disse Lya Luft num artiguinho seu. Fiquei em reclusão domiciliar, em disfarce do mundo, cortei temporariamente meu cordão umbilical com Deus, com a fonte-matriz-mãe-pai, com a natureza que eu re-descobri ser, para que pudesse voltar desejosa, voltar ansiando o primeiro ar depois do quase afogamento, que reconforta e preenche os pulmões do maior aconchego, do vislumbre da magnitude que é a chance de se viver, escancarar as portas, romper as janelas, despedaçar as amarras, bradando gloriosamente, por toda a terra, a sede de escadas, a própria humanidade: fisicamente limitada e infinitamente potente.

Fisicamente limitada.
De várias formas.
Aceitamos estar aqui, manifestos nessa forma densa, desde o momento em que cedemos o espaço atemporal de nossas luzes ao que cabe no cubículo de uma cápsula de humanidade (bela e poderosa, é verdade!).
Haverá desafios, poderá haver aprendizados.
Indrinha já me disse e não a entendi, Mãezinha já me disse e não entendi. Agora com mais esse ano, com mais essa volta saudosa, com mais um ano de estar em Maringá e coisas misteriosas me levarem ao inesperado, ao compreensível-daqui-a-pouco, algum brilho diferente pôde ser decifrado. A esfinge treme. É que volto à parte de onde partem todas as transformações efetivas – as afetivas, ao centro de toda a capacidade de uma mulher como de um homem, volto ao coração (o coração chama, e não a bomba de sangue) e ao quanto ele consegue ou não se exercitar, se doar em cores bonitas, se matar na entrega total ao outro. Em mim dessa vez, nessa vinda, a etapa da amizade-colega já escalou diversas montanhas, caiu, quebrou, vazou água salgada, e o mar moldou belos rochedos de que gosto bastante.

Faltam ainda porções imensas de aprender o amor romântico, se é que esse nome explica do que estou falando.
Agora estou pela primeira vez o mais pronta que já me senti para agradecer à chance de ter começado a aprendê-lo. Não ter vergonha de cada erro bobo e ridículo que cometi nesse pequeno percurso, já trabalhado de vento, de areia, de mar, que é o mar em que precisa se jogar qualquer coração minimamente vivo ou que se deseje vibrar como só se faz enquanto tal (Não sou eu quem me navega/ Quem me navega é o amor mar; Paulinho da Viola). Bastante doentia procurei me adequar ao instinto talvez animal, provavelmente só feio da obviedade em que se formou; gasto já ao revestir-se de previsibilidade e medo, uma fruta podre a interação – e não necessariamente os atores –, uma peça fadada ao fracasso, arquivada repetitiva e furtivamente em cada tentativa falsa de reencontro, de contorno, de junção do cristal quebrado. Acho que sei o suficiente do que falo, sei pelo menos de quem falo, e deixo às palavras a liberdade criativa que couber a quem quiser, mentalmente, traduzi-las.
mil perdões ao/à autor/a, salvei só como Kiss.jpg


Enquanto se dava esse caminho lancinante, em meio ao concurso que era essa competição tresloucada de esporte radical, na mentira feia, dura e mais crua do que eu jamais consegui ver, de temer aquela vida florida, de não me crer merecedora, de escolher não lidar com o que quer que seja que me incomoda e incomodava, incomodava, doía, revirava-me o estômago e eu varri as borboletas para baixo do tapete com medo de querer mata-las como eu me afastei do parapeito tantas vezes com medo de querer pular ao invés de me dar tempo para perceber o que era a vontade verdadeira, e respeitar o desejo de naturalidade do afastamento. Não queria deixar o futuro ser futuro, e por isso nada aconteceu inteiramente. Quebrei todas as bordas do quebra-cabeça. Auto-flagelo.
Tinha um amor aqui. Tinha sim. Tinha o amor aqui. Pulsando, implorando, sincero e entregue como se deve ser para se transformar no próprio nome. Era uma criança e era a coisa mais sábia que eu já vi. Era certeza deslizando por cada brilho de satisfação, de alegria, nos olhos. E o medo, foi sim o medo, foi sim a vontade de que o labirinto não fosse labirinto e eu pudesse ter tudo às mãos como me garantiam as rédeas da monotonia, da solidão, nas quais eu cavalgava rainha até então. Fugi do meu destino pela primeira vez de que consigo me lembrar. E não quis nem soube valorizar a fraqueza que eu não fui grande o bastante para admitir ter. Pairava a li toda a branca névoa do cisne encantado, e eu quis a maldição, eu quis a escuridão do omitir, do mentir, de comparar, de ceder ao meu primitivo querer controle, querer poder. Isso já se repetiu. Aprendi ali o erro que é ter nojo da fraqueza, o erro que é absorver a energia de aparente superioridade, que é na verdade uma das maiores ilusões que se pode criar, prisão perpétua porque engolimos a chave. Hoje sinto com cada bater de teclas desse teclado que arranco, que desintegro, que encravo as unhas em todo o caminho que essa chave sujou dentro de mim, dentro de cada partícula que escureceu em mim quando dessa tranca maldita, e regurgito esse feto assassino e sangrento de arrependimento, de mágoa, de culpa, que plantei aqui, que me afasta das chances que tenho de ser abraçada, que escrutina as ventos que tentam soprar por minhas janelas até orgulhosamente encontrar alguma sujeira que sirva de pretexto pra trancafiar toda a casa em sombra e penumbra. E poeira. Festa de teia de aranha.

Teve um outro. Mas esse aprendizado, prova escorregadia de amor, revelarei que foi meteórico. Assim o condeno ao impossível, ou só me cabe imaginá-lo no impossível porque é mesmo coisa de outro mundo. Lembra-me apenas o rosto de propaganda que vi, de quem abraça o produto e sorri, e há carinho inestimável, inexpressível em palavras humanas ainda que a coisa seja uma venda, um instrumento do diabo, há esse quê de inesgotável amor instantâneo nascido no momento de reconhecimento tácito que é esse sorriso, que é o afago resignado e querido de um animal de estimação. Chamarei ao leão, no suspiro já usual, amor meteórico de estimação.

Agora o animal instintivo de atração irresistível, de luta carniceira contra qualquer pureza remanescente não cabe mais aqui, ainda assim há amor pela criatura ser o que é, e admiração, pois ela é também beleza e não há vergonha nessa opinião. Foi amor aquilo? Agora é e posso dizê-lo livre, ufa! Provavelmente essa compreensão se traduz em fraternidade e só.
Fruto dessa mesma primavera é o amor às saudades, todas elas, e hoje principalmente essas dos primórdios, essas de cada acerto de férias, leve, rural, leviano e de cada erro meticulosamente calculado na cotidiana pressa imperfeita de uma cidade cinza que inaugurei em meu peito em germinação ainda tão iniciante. Poxa vida. Abraço meus eus de cada um desses momentos e sou tudo isso, e só posso querer bem a esses grandes mestres, ao meu primeiro amor, posso sorrir e não é mais o riso desesperado de vergonha e a vontade de dizer que nunca, aos vermes a borracha medonha com a qual quis me apagar com cada tentativa em vão de eliminar de mim essa tatuagem. É claridade amar assim, e que consigamos conservar cada chama do que fomos, do que somos, nesse ano que vem, nessa vida que vem sempre, que vem indo e voltando, que é maravilhosa pelo simples, complexo, desenhado à mão em renda virgem, pelo belíssimo fato de existirmos só, sós, e juntíssimos, numa só coisa-luz.

Obrigada, 2O11!
Maringá, 3O de dezembro de 2O11

terça-feira, janeiro 24

Rouge - Bla bla bla

Confessando-me

Antes de mais nada, vamos às evidências:


Chico Buarque - Geni e o Zepelim
"De tudo que é nego torto, do mangue, do cais do porto, ela já foi namorada... O seu corpo é dos errantes, dos cegos, dos retirantes, é de quem não tem mais nada. Foi assim desde menina, na garagem, na cantina, atrás do tanque, no mato. É a rainha dos detentos, das loucas, dos lazarentos, dos moleques de internato. E também vai amiúde aos velhinhos sem saúde e às viúvas sem porvir. Ela é um poço de bondade, é é por isso que a cidade vive sempre a repetir:


Joga pedra na Geni!
Joga pedra na Geni!
Ela é feita pra apanhar!
Ela é boa de cuspir!
Ela dá pra qualquer um!
Maldita Geni!

Um dia surgiu brilhante, entre as nuvens, flutuante, um enorme zepelim. Pairou sobre os edifícios, abriu dois mil orifícios, com dois mil canhões assim. A cidade apavorada se quedou paralisada, pronta pra virar geleia. Mas do zepelim gigante, desceu o seu comandante, dizendo: 'mudei de ideia. Quando vi nesta cidade tanto horror e iniquidade, resolvi tudo explodir. Mas posso evitar o drama se aquela formosa dama esta noite me servir.' 



'Essa dama' era Geni!
Mas não pode ser Geni!
Ela é feita pra apanhar!
Ela é boa de cuspir!
Ela dá pra qualquer um!
Maldita Geni!

Mas de fato, logo ela, tão coitada e tão singela... Cativara o forasteiro. O guerreiro tão vistoso, tão temido e poderoso, era dela prisioneiro. Acontece que a donzela, e isso era segredo dela... Também tinha seus caprichos. E ao deitar com homem tão nobre, tão cheirando a brilho e a cobre, preferia amar com os bichos.

Ao ouvir tal heresia, a cidade em romaria foi beijar a sua mão. O prefeito, de joelhos. O bispo de olhos vermelhos. E o banqueiro, com um milhão. 


Vai com ele, vai Geni!

Vai com ele, vai Geni! 
Você pode nos salvar!
Você vai nos redimir!
Você dá pra qualquer um!
Bendita Geni!



Foram tantos os peidos, tão sinceros, tão sentidos, que ela dominou seu asco. Nessa noite lancinante, entregou-se a tal amante como quem dá-se ao carrasco. Ele fez tanta sujeira, lambuzou-se a  noite inteira, até ficar saciado. E nem bem amanhecia, partiu numa nuvem fria, com seu zepelim prateado.
Num suspiro aliviado, ela se virou pro lado e tentou até sorrir... Mas logo raiou o dia e a cidade, em cantoria, não deixou ela dormir.

Joga pedra na Geni!
Joga bosta na Geni!
Ela é feita pra apanhar!
Ela é boa de cuspir!
Ela dá pra qualquer um!
Maldita Geni!




Então, não lembro bem se foi na quinta ou na sexta série, mas lá no Arquidiocesano, a Geni foi minha professora de laboratório por um ano. Eu era uma das primeiras da lista de chamada porque meu nome começa com A, obviamente. As mesas eram organizadas em ordem numérica então eu me sentava bem na frente da Geni, e pertinho, e todos só falavam numa coisa: ela cultivava esse péssimo hábito de cuspir enquanto dava aula. E então era só disso que se conversava quando mencionada aquela aula de ciências, aquele laboratório, mais bem equipado do que o deu muitas faculdades, onde poderíamos ter aprendido coisas incríveis, mas não aprendi, fiquei ouvindo as fofocas sobre a Geni. Mesmo sem concordar, sem entender, sem ter nada a dizer, eu contribuía com minha parcela diária de baboseiras.
Agora o importante foi o dia em que algum retardado descobriu essa arte do Chico e decidiu atribuí-la à nossa própria Geni, e então todos gritavam: "taca pedra na Geni, taca pedra na Geni!..." o resto você já sabe. E eu estava junto, e eu andava junto, e eu não contradizia esse bando de retardados, mal educados, desrespeitosos, invejosos, egocêntricos e egoístas, e eu os chamava de amigos e amigas, e queria ser como eles, e alisei meus cabelos para isso, e me calei para isso, e troquei os óculos por lentes de contato para isso, e calei-me perante seguidas injustiças e participei delas, por causa dessa minha fome de popularidade (quem me alertou foi a pessoa com quem eu menos conversava, George Kawashita, irmão de Juli, muito obrigada amigo!). Um dia, na festa da Alice, saí e fomos à casa de Caio porque Giovanna o beijava quando tinha vontades. E descemos a grande ladeira pra tocar a campainha da Geni e sair correndo de madrugada, e corremos descalços pra tacar a nossa própria pedrinha especialíssima em forma de som estridente na nossa querida mestra Geni. E eu dei risada, e tirei fotos naquela noite, e me achava super linda e gostosona. Uhul, que corpo hein garota! 

Que ironia, que mentira, saber agora que tudo isso não valeu de nada.
E que a verdadeira Geni sou eu.
A vida tem mesmo jeitos muito lindos de nos apresentar às nossas próprias pessoas... 

terça-feira, janeiro 17

Cheiro de amor*


Passei do lado do quarto para ir buscar minha escova de dentes,
E foi aí que algo me deteve.

Eu não parei de andar, mas houve um reconhecimento daquela sensação avassaladora. Era um odor envolvente, calor doce, familiar, querido.
Queridos.

Vinha da porta entreaberta onde dorme se amando o casal. Onde vive se amando o casal. Não há portas fechadas para o tamanho dos sorrisos que apesar de fixos fisicamente em faces diversas são a mesma alegria. São própria e justamente uma unidade de vida. Uma vida una. Era esse cheiro de amor, inspirador, preenchedor mesmo só de ver de longe toda a harmonia com que sorriem, todo o desejo com que dançam sem exposição, sem competição, um amor puro, de criança, exemplar. Que honra tê-los nessa casa!
Gratidão.

E passada a garganta cortada pela pasta de dente, vos desejo uma boa noite.

sexta-feira, novembro 11

O rugi(r)do recém-nascido ser político


Antes de ir para lá passei no Acampa Sampa, o que é pano para uma outra história que mesmo sendo útil para a compreensão dessa, escolheu aparecer depois. Mas vai aparecer.

De coração repleto de vida, e mesmo assim meio aéreo, naquela sensação de não-sei-o-que-faço-aqui, um certo deslocamento, um certo descolamento, sem aparente motivo que não meu desconhecimento da situação em dois sentidos: da história pontual e da dinâmica de um ato.
No caminho pergunto à menina do avião de papel, e dos sonhos lourinhos de olhos lutadoramente azuis sua opinião. Gosto. Mas aquele gosto incompleto de quem busca o que não sabe bem o que é, um gosto incapaz de matar a estranha angústia muda que aqui se abrigara.

Faculdade de Direito do Largo São Francisco.
Já sentia boa a ideia de ser lá. De conversar sobre a urgência da conversão desse franciscanismo distante, unilateralmente proposto quando da separação entre os cursos, do nosso verde e amplo exílio universitário “autárquico”, e aceito por todos nós, quando nos abstivemos da interação.
Ainda assim o não sei que faço aqui. Provavelmente melhor descreveria esse sentimento dizendo que não ei que quero fazer daqui para frente. Não sei como me quero ver nesse movimento. Não sei se me quero ver nesse movimento.

Conversa 1 – Anja Rebecca
A simplicidade que é só com o que se pode ter uma genuína vontade de vida pura, transformadora. A aposta gratuita de que eu talvez tanto precisasse, e talvez nem tanto, mas que não tinha sido encontrada em nenhum lugar do peito até então; “Vê se toma coragem e fala isso que você me disse, vai ser muito importante!”.

Conversa 2 – Thiago Potter
Explicações mais integrais, e consistentes, de quem estava na primeira Assembleia e ao lado de todo o processo de ocupação. Foi importantíssimo perceber o quanto eu tinha estereotipado “os radicais que boicotaram a assembleia e impuseram uma ocupação ilegítima”, quando na verdade eu não sei bem o que aconteceu, mas sei que, justamente, eu ou alguém teria de ser muito, muito bom e muito perto de/d@ onisciente para poder definir o que aconteceu com tamanha precisão. Senti pequena a minha prepotência. Sim, olha que novidade! Ela não estava só em “todos os despolitizados ridículos que dizem que a FFLCH é o antro do pecado e das drogas e a FEA a segunda casa do fascismo no mundo”, ela estava ali em mim, naquele momento em que chamei um grupo de “eles”, agindo contra tudo que penso e “prego”.  Tá aí a principal questão, já tão bem tratada pelo Leo Calderoni em sua carta: <>, não são “eles” (termo que não existe, não existe, não existe, estamos falando de seres, seres humanos e cheios de toda a luz e vida que a humanidade traz consigo por definição. Só consigo pensar em “nós”), não são “eles” os culpados por nada. E sim cada que fazemos, cada julgamento prepotente, cada valorização egoística que considera o outro pequeno, ou coitadinho, ou um simples rebelde sem causa. Sem entendimento verdadeiro, preocupado, e eu digo amoroso no sentido de que, realmente, ainda não conheci ninguém que gostaria de ser condenado sem direito a defesa.

Conversa 3 – Kinha
Eis que chegam os olhos puxados, a roupa toda cor e vida, verde, florida, zen, amarela, viva, viva, energética, pura como sempre. Mas dentro um peso que dividíamos. Ali no meio daquelas bandeiras todas, daqueles gritos todos, daquelas discussões chocantes com as pessoas da rua que se recusavam a nos entender, daquele não entendimento combatido com não entendimento, que só separa as pessoas, só separa as pessoas, não apenas umas das outras como também de seus próprios seres livres – que são a única parte de nós capaz de nos conduzir por algum caminho verdadeiro e verdadeiramente belo –, vendo tudo isso, morríamos.
Morríamos de não saber se estar ali queria dizer concordar com toda a parte podre do ME que estava ali e com toda a parte podre de tudo o que aquela egrégora produzia, de tudo o que estava sendo dito em cada bandeira, grito ofensivo, ou no carro de som. E morremos no caminho, numa boa parte dele.

Conversa 4 – Carol
Eis que a amiga dela, também jornalista, também ECAna, também querida por sinal, mas que foi para lá por motivos “acadêmicos”, de fazer um trabalho, e acabou ficando, me revela tudo o que eu queria saber, por linhas aliás tortas, no sentido de ser algo com que eu inicialmente não concordei. Como a todas as sabedorias que nos atingem resistem nossos demônios e medos, precisei de um tempo para digerir e poder me dirigir realmente. Eis o tema:
 – Não gosto de que isso começou por uma radicalização, por uma segmentação, e que tenha que ser apoiado não só financeiramente mas também em questão das pessoas participantes, por partidos políticos com os quais eu não sei se concordo, mas até saber não quero estar envolvida com.
 – Mas do jeito que a coisa está hoje, a gente depende deles. Ninguém estaria aqui se não fosse por eles.
Ou seja, estava dita a mais pura verdade. Do jeito que estamos hoje, desmobilizados, duros, insensíveis, incomoviveis, preconceituosos, juízes habilidosos para tudo o que nos rodeia, cegamente incapazes de olharmos para dentro uma só vez que seja e dizer ‘está na hora de uma bela reforma aqui no meu templo’, dessa forma, precisamos “deles”.

Precisamos de alguém que tome uma atitude radical frente a uma situação radical à qual permitimos que a coisa se encaminhasse. Precisamos de uma ação controversa, talvez ilegítima, considerada ilegal, de uma provocação mútua, de uma ação armada, militarizada, absurda, de joguinhos de poder sujamente políticos nos quais somos marionetizados, precisamos deles todos, para que algo aconteça. Precisamos deles todos porque nos abstivemos, pulamos para fora do trem ao invés de pular para dentro dele, de assumir o comando, de explicar pro motorista que ele esta cego e tem gente que pode ajuda-lo a não sair dos trilhos.  E aí, na hora que o bicho pega, precisamos nos ver no dilema de sentar pra assistir ou pular todos juntos na frente do trem, que já perdeu os freios, que já corre, que já tem sede de nosso sangue indiferente.

Tá aí o problema.
Pra quem como eu não acredita na profissionalização da política, pra quem tem nojo de partidarismo vazio, pra quem tem medo de extremismo, pra quem duvida de toda violência, pra quem quer mais humanidades nas relações humanas de qualquer tipo, pra quem não engole julgamentos preconceituosos, pra quem está insatisfeito com o tipo de representação política que temos, seja a estatal, seja a estudantil, vivamos então essa política.
Que ela flua por nós como quando respiramos, que escorra de nossas mãos, olhos, ouvidos, palavras, a cada segundo. Ela não será desprofissionalizada, acertada, corrigida, transformada, revolucionada, ela não será nada diferente do que é agora por alguma magia externa. A única magia – e eu realmente considero isso como uma magia, linda e maravilhosa – capaz de fazer isso está aqui. Está muito mais perto do que qualquer livro de ficção possa supor. Está dentro de cada um que tem o poder de simplesmente se posicionar. Se posicionar não é só votar na assembleia, apesar de ser isso também. É viver aquilo é normalizar aquilo, em cada conversa, em cada novo dia, dia-a-dia. Que isso seja novo e que essa flexibilidade política que é o que eu creio que tanto falta quando alguém tatua no peito uma bandeira que não muda, esteja em mim, e esteja em qualquer um que queira nascer para esse novo, velho modo de fazer/ser política que está sendo ressuscitado no mundo de agora.
De agora.
Não sei bem qual é minha proposta para a solução mais eficaz de todos os problemas que a USP e que a sociedade de São Paulo, do Brasil e do mundo enfrentam no momento. Obviamente que não sei tudo isso. Duvido mas adorarei saber qual é, se alguém já chegou lá me conte por favor J. Mas o que eu sei é que eu quero propor aquilo que vier na minha cabeça, que eu preciso participar disso, que eu acredito na transformação de tudo, e também do movimento estudantil, e também da distancia burra e surda entre as faculdades, da estereotipagem, da desumanização da política e de toda relação social. E que eu não quero só ficar chorando com isso. Eu não quero esquecer a segurança caso o Rodas não saia ou caso a PM não saia, como eu fiz depois da morte do Felipe. E eu simplesmente não vou deixar que isso aconteça em mim. Se não houver força para isso continuar e eu me tornar uma pobre formiguinha na escuridão, tudo bem, terei tentado. Mas a grande alegria que toma conta de mim nesse momento vem de ontem, vem desses acontecimentos históricos, vem das ocupações do mundo, da São João, do Viaduto do Chá, da USP, da São Francisco, de Harvard. Vem dessa nova gente fina elegante e sincera, dessa nova era. Vem de saber que eu não estou sozinha.
E assim há toda a esperança.

You may say I’m a dreamer,
But I’m not the only one.
I hope some day you will join us,
And the world will be as (the) one (it really is).


quinta-feira, outubro 20

Medo de Leão

Não sei porque foi tão estranho como o quebrar de um jarro que não se queria muito.
Estranho como o som surdo e totalmente apático da abelha morta cuja picada se deseja mais que qualquer veneno, cujo sabor de ferrão na língua só se pode esperar que seja todo o mel existente, imaginável, inimaginável - se é que existe, essa terceira modalidade. E última. E última.

Última como foi essa resgataria maravilhosamente abençoadora da alma minha.
Naquele dia em que o mar me engoliu,
e eu deixei-me ir por tua boia magra.
Por tua mão sábia e então tão viva.
Por tua juventude.
Por toda a juventude,
que ali nos coube. Em que ali coubemos, eu sendo criança de novo como sempre não consigo esconder de nada - e nem gostaria, credo!

Quando essas malditas serpentes desse corpo tão livre e grande, tão materializado, tão imunda e impiedosamente carnal em todos os seus poros arreganhados, quando todas elas de Medusa me asfixiaram envernizando-me as cordas vocais, tocastes.
Fez-me música o bailar dos nomes, e num vapor voltei à vida.
Ah, vida.
Pude mais sorrir, pude me sorrir. Só rir. Só.
Só e parece que gosto de esquecer essa parte. Muito reconfortante é essa tenebrosamente fantasmagórica ilusão de que nalgum dia se pode estar junto, se pode ser sendo fundido a alguma massa estranha. Porque a sensação esquisita de pertencimento com que tua linda mente já então me abocanhara foi mais pesadamente fincada na terra do que naquela noite se pôde supor.
Fatidicamente, te vi acorrentar ao pé da cama uma criança. Te vi amonstranhar-se em silêncio e vaporífera sabedoria, te vi vencendo o vencedor ensanguentado, trazido aos berros por fora do carro. Te vi apequeninar-se sem que eu soubesse sentir. Sem que eu soubesse me bem-sentir.

É que (perdoe-me parafrasear Cupim) a mim, bastante provavelmente, não foi dado o direito de escolher a conversa com a realeza.
Não, não, senhor.
Não senhor.
Senhor.
Prefiro tudo que corre em riscos, prefiro tudo que bambeia nos ares, só a isso consigo me ligar verdadeiramente, só desse vento áspero consigo chupar o sangue.

Esse não-sei-que que te roubou daqui das nuvens divinas onde brincávamos de bonecos a vida, Simba, que te rolou pelo desfiladeiro implacável do envelhecimento, que pintou com lápis de não cor, de cinzas e metal, pesado metal tóxico e assombroso, que te pintou,
foi isso que quebrou aqueles instantes em que nos vimos. Avatares.
Talvez eu sinta-me melhor culpando ao meu mito do pertencimento. A essa minha fraqueza que é deixar-me invadir pela vontade de ter um nome que não me cabe, de ter um lugar, de que as pessoas cabem nas coisas definitivas, nas definições. Assustador. Eca. Acordada nunca quereria algo assim, mas sofro de viver num plano sonâmbulo.
E foi talvez um tropeço desse mítico legado, que ainda te sustentaria o pedestal se pudéssemos mais, que fez ressoar até agora o bater sonoro da porta cósmica. Fostes-te, em ti não está mais a confortável juba. e visivelmente, sinto medo.
De que tenhas morrido o que deixastes a secar. Vento.

Parto, parto, avisando ao mundo que venta forte aqui no berço onde dormirei embalada pela Guerra Civil Espanhola.

quinta-feira, outubro 6

Me gustaria tenerte en mis brazos; amor

like that
spanish guitar
and you would play me through the night

until the dawn
O medo que temos
querido,
querido - e aqui cuspo fora a feroz e assustadora, horrível vontade de chamar-te meu - de sermos comuns.

De deixar-nos engolfar num dos previsíveis 18 buracos,
do mundo ou das almas alheias.


NÃO te deixarei;
minha mão fria e pequena vai se desgarrar do pedigree de natimorta que lhe deram quando descobriram minhas asas, em cenas de King Kong.
Ela vai agora agarrar-te buscar e conter.

Seu dorso ossudo de maternidade frágil e precoce, quase fetal, quase muda, disforme, ele todo só quer e só vive se te embrionar, se puder encher teu ventre das minhocas apassarinhadas que vomita, todas elas cheias dele, todas essas cheias de mim, minhas marés, eu, engolida por ti. 


Quero te encher de toda essa vida úmida, subterrânea, completa e sensivelmente cutânea, em flor.


Quero toda a Tua capacidade de me sentir Faca Cortante,
em, e
para
Ti.



E sabes muito bem do que te falo quando das saudades de tua voz bonita de teu falar sabiamente desconcertante de tuas descobertas em mim engatinhadas, eu gatilho, eu, tu.


Temo também que esses meus gritos de amor esfarelem tua bela vida
É que para mim, daqui mata a fome fazer parte dela.
Daqui te vejo, sinto e cheiro. Daqui até te tenho se eu quiser mais. Se eu quiser demais.
Daqui contentaria-me sem calor, bastando essa suspeita leve de borboleta-olhar feliz.


E as pistas urgem-me berros, não queroconsigo mais ser esfinge.
Poderia, com mentiras
Mas minha carne agora gorda dessa flor distante em que me transformei, intrinsecamente enraizada em teu vaso vivo de olhos azuis, toda essa, massa estranha que agora também eu sou, ela assim se esfolaria em quilo metros malignos rolos de lixa e de lâmina;
a cada gota de sangue o amor,
a cada lágrima impura uma auto (e alta!) traição.
Quero gritar-me até ti em todas as camisetas estampadas que o mundo for capaz de oferecer ao meu estômago infinito. Não acaba essa fome.De que?


Fome
de
que?


Também não, também não poderia simplesmente devorá-lo e morrer-te aqui em meus caminhos sinuosos, em meu corpo materno, em algo que talvez para o tu que desconheço seja o que mais se aproxima do que quero chamar de mim. Talvez, Talvez.
É que não acho que há quem saiba melhor essa arte de fazer-me musicar a vida harmônica que meus ouvidos não conseguem sentir, que escapa aos olhos, e vem palpitar na saliva, na boca, nos poros, na realidade que é o único meio onde talvez algo de mim se eternize. Não sei bem que é ela, não sei bem quem sou eu. Mas sinto que o sabem, isso, as tuas milagrosas mãos. Sinto que sabem um saber deficiente de instrução, sinto que sabem com o peso calvárico de quem teve a cara espremida por jatos homéricos quando teve sede, e não se viu a criança suficiente para saber que podiam levantar. Que podiam.

Como podiam. E como podem.

E quero acreditar que esse teu sinestésico dom divino posso morar mesmo de longe.
E se não puder invado. Que também eu já vislumbro os sinais de fumaça viva, o aviso de fogo, que nos leva tão mais juntos que me respondes em minha "lista aleatória", sempre que te peço colo de amor.

E assim te cantaria se soubesse, 

I'll be tu cancion 

quarta-feira, setembro 28

Banksy Bang,


Escuro. Silêncio. Luzes. Estranhos aos meus lados.
A alegria pós-chocolate, a ignorância dos plásticos silenciosos cegados, observando por através do tecido florido da bolsa no chão.
A bolsa no chão, ela e todos os meus sonhos, como já dizia o sábio (e natural e obviamente, por consequência ou causa, ou mais precisamente por conjunto, maluco) Piauí. Da Paulista.

Sombras.
O vômito mais poderoso do que nunca do velhinho, do Tio, do pobre de si, do dono da podridão, do aminimigo, do homninimigo, sem o homem, do Sam.

Construo a ideia-maravilha daqueles homens delicados, do marte sensível, do guerreiro aconchegante capaz de sentir na pele de dentro as gotas de chuva de sorvete britânico. Doce. Doce como é doce uma ilusão qualquer. Qualquer.
Mas pausa para a macaca. A macaca-noiva e sua rosa torta, e sua rosa torso. Promessa da noite e eu ainda não sabia o que era o seu algo especial. O seu? Daqui a pouco, a devoraria.

E então me é dito, como eu lhes diria.
Que ao ler seu poema pensei que poderia eu mesmo ter escrito todos aqueles versos. E derrepente (sim sim, não há como separar. Não há. Se parar, não há), assim, meu corpo quis dançar tudo o que eu já tinha escrito.
                Gostaria rapidamente de relembrar-me de que as palavras são o de menos. E de que eu não pretendo, nesse momento em posso dizer que hipótese nenhuma, respeitar as linhas tortas que decorastes; tolo.

A minha poesia são pedaços que caem de mim.
A minha dança, é uma poesia inconsequente que trocou o papel pela vida.

Também posso decorar falas fáceis.  (Obrigada, querido, pelo sopro de conseguimento;). Quero-te (e fique bem muitíssimo claro que tudo o que não quero é a ti), dizer que chupes essa manga, mas isso assim não o direi, você não se interessaria pela minha falta de postura, de sensibilidade, e de estilo.

E nesse momento a música de teu corpo, como se aquela rua fosse minha, fez-me sentir cada pedaço caído meu a rodar na névoa que compõe todo palco, na própria centelha luminosa que talvez imprescindivelmente constitui toda arte. Que eu conheça por enquanto. E sorri, e de mãos e corpo aberto quis receber toda aquela magia densa e colorida de amor forte que colocaram naqueles dois corpos entrelaçados, em guerra, em paixão.
Na criança de dentro da mulher agonizante que é cada uma que já sentiu o amor. Um amor. A. Talvez até literalmente – e isso só poderá confirmar meu colega do lado direito de plateia, pobre homem cuja tranquilidade de espectador eu talvez tenha jogado no chão em meu impulso sinestésico; talvez até literalmente eu tenha vibrado com a mulher vibrante que se fez de todos os tamanhos que o moço ali poderia supor e,ou, precisar. Adequando-se, a camaleoa bordô de seda. Senti-me ali e aquilo era puramente o leão {o verdadeiro que sabe e que minha voz proclama mesmo mais do que cons(ciente??)mente gostaria de limitar-se a querer, e não esse outro, esquisitamente desajeitado e incômodo, e meio incabível até onde minha memória me permite saber de lembrança, que se adoraria se fosse esse ser}, em cada abraço de suspiro entregue. Entregue estava a força bruta logo no outro segundo, estirada ao chão, contorcida após se render ao esmagador cotidiano imposto. E então a mulher era eu impedindo que a cabeça de Carlinhos de espatifasse pelo solo negro, que lhe iria revelar todo o nada que ele, ainda velho, naquele dia ainda não quis conseguir ser. E chorei sorrindo, sentindo a completude de um dia de libertação, de um dia sem casulo, de talvez um novo redescobrimento – que certamente ninguém sabe quanto dura antes de ser esquecido sob o pó, isso só a possível vontade futura de minha luta visceral nos dirá.

Depois o choro que eu lembrei-me criança, quando constatei o gosto bom que a lágrima tinha por trás dos dentes escancarados, e como aquilo era bom pra matar o pudor. O se perceber frágil e absorvendo isso por meio da simples, e não sei dizer se pura só na minha cabeça ou realmente, mas tenho muito claro que da simples vida, conseguir achar graça. A graça.
                Foi quando então em meio a uma gostosa crise asmática, poltrona onde eu me sentava massageada o suficiente para entender a inutilidade do medo de estar sozinha que acordou comigo nesse mesmo dia revolucionário, bang.
Ofereces-me toda a sua pequenez, tentativa de piada.
Quebras a verdade de um riso espontâneo, com que liberdade? Com que liberdade maior? Porque essa comparação?

Daquele momento em diante – e vou parando por aqui porque em mim já há pecados demais para que eu consiga, e depois em paz, querer discorrer sobre os teus – caiu o palco onde dançou teu corpo bonito em tua mente, e na nudez sob a meia luz te vi deformado como algo que não foi feito preparado para que o virassem do avesso. Lembrei da tristeza que sinto com palavras vagas que conseguem ser tocantes, e com o medo que ainda amo ter das coisas que me enojam. Tive nojo, não vou te mentir. E a tua madeira pesada, Jerôôônimooo, caiu sobre minha alma naquele momento, em que precisei fechá-la para o seu caminho avassalador de homem matéria de vestido, recusador do guiar consciencial.
                Nasceu de novo a mulher, sem vestido, sem nada. Ela nesse momento tudo. Estrela, famosa, talvez simplesmente porque quis dizer com tudo isso e os livros no chão, nada mais que a inocência do boa moça. E tu querendo chuvas de rosas sensuais. Prefiro o soprinho. Prefiro a asma. Prefiro qualquer coisa que dentro de mim não faça medo como me fizestes naquele momento. E lembrei de Patch, e lembrei de Cynthia, e lembrei que felicidade alheia para essa grande árvore de flexibilidade que és teu corpo sensível e desprovido de Deus, só é boa dentro do patamar em que não voe. Então me aterrei, mas não posso permitir que tua proximidade preencha minha boca e todos os meus órgãos vivos de terra. E deixo com você a terra, querido. Que consigas plantar nela uma flor maior que teu corpo sujeito à gravidade, e aí quem sabe um dia próximo numa outra sala escura metadeada de cadeiras, queiras voar em conjunto e absorver tanto quanto eu tentei, esse bonito passeio coletivo pelas estrelas floridas da arte humana,
                Ana.

Ah, risca essa assinatura podre!
Que bom, que graça, que graças, não ter eu tentado semear esse pedaço de assassinato, bem no finalzinho. Ainda bem, Bem, que o amigo Fábio pôde acender a luz dessa ânsia que rodeava minha garganta e meus dedos impregnados de juíza-mentira quando eu te condenei ontem à noite. Que te dizer como eres foi símbolo-mastro de minha maior fraqueza. Essa distância, esse cruzar tão hipócrita e mentirosamente sobreposto a tudo que eu digo e a cada bandeira que carrego cravada em meu peito, foi isso onde pequei. Onde manchei de negror fétido a linda experiência receptiva com que minhalma deliciava-se, com que ressuscitamos, todos nós.
               
Por que temi olhar seus olhos, admirar tua arte querer que te transformasses nela naquele minuto? Bem sei que poderias. Bem sei que é muito provável que me tenhas em esquecimento, que é muito provável que realmente aquele oferecer tenha sido uma rosa. Uma rosa tão cálida como é teu coração saltitante e impulsivamente repulsório, repulsante, repulsivo aos desatentos como eu; reverberado de pés sujos no salão-casa mais bem mal-iluminado que já viram esses olhos. Que neguei a força de tua magia negra, e por quê?
Talvez seja isso que recém-nascidos fazem nas incubadoras. Roubam do mundo um momento e uma mãe que não tiveram para poderem consumir a vida com o próprio sangue uma vez que libertos.
Então me perdoe, mãe Mickey arte corpo Jerônimo belo baque no solo do coração que sangrei naquele momento triste de fechamento de minhas portas-janelas ao que teu belo nos oferece. E por não sugar até o esgotamento aqueles segundos em que te sentastes do meu lado, para infringir sobre todo o pedaço de ordem dentro de você que me mata ou assusta, a maior beleza do meu amor, a que não se pode dar nome nem forma, mas é ele sim e só (solitário), e talvez também só de unicamente, o que eu quero agora chamar poder.

E fica, e fica aqui, e fica em qualquer coisa e também eu sou coisa quando digo assim,
no mínimo tudo o que for flor e mulher dentro de cada um deles.