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terça-feira, janeiro 24

Confessando-me

Antes de mais nada, vamos às evidências:


Chico Buarque - Geni e o Zepelim
"De tudo que é nego torto, do mangue, do cais do porto, ela já foi namorada... O seu corpo é dos errantes, dos cegos, dos retirantes, é de quem não tem mais nada. Foi assim desde menina, na garagem, na cantina, atrás do tanque, no mato. É a rainha dos detentos, das loucas, dos lazarentos, dos moleques de internato. E também vai amiúde aos velhinhos sem saúde e às viúvas sem porvir. Ela é um poço de bondade, é é por isso que a cidade vive sempre a repetir:


Joga pedra na Geni!
Joga pedra na Geni!
Ela é feita pra apanhar!
Ela é boa de cuspir!
Ela dá pra qualquer um!
Maldita Geni!

Um dia surgiu brilhante, entre as nuvens, flutuante, um enorme zepelim. Pairou sobre os edifícios, abriu dois mil orifícios, com dois mil canhões assim. A cidade apavorada se quedou paralisada, pronta pra virar geleia. Mas do zepelim gigante, desceu o seu comandante, dizendo: 'mudei de ideia. Quando vi nesta cidade tanto horror e iniquidade, resolvi tudo explodir. Mas posso evitar o drama se aquela formosa dama esta noite me servir.' 



'Essa dama' era Geni!
Mas não pode ser Geni!
Ela é feita pra apanhar!
Ela é boa de cuspir!
Ela dá pra qualquer um!
Maldita Geni!

Mas de fato, logo ela, tão coitada e tão singela... Cativara o forasteiro. O guerreiro tão vistoso, tão temido e poderoso, era dela prisioneiro. Acontece que a donzela, e isso era segredo dela... Também tinha seus caprichos. E ao deitar com homem tão nobre, tão cheirando a brilho e a cobre, preferia amar com os bichos.

Ao ouvir tal heresia, a cidade em romaria foi beijar a sua mão. O prefeito, de joelhos. O bispo de olhos vermelhos. E o banqueiro, com um milhão. 


Vai com ele, vai Geni!

Vai com ele, vai Geni! 
Você pode nos salvar!
Você vai nos redimir!
Você dá pra qualquer um!
Bendita Geni!



Foram tantos os peidos, tão sinceros, tão sentidos, que ela dominou seu asco. Nessa noite lancinante, entregou-se a tal amante como quem dá-se ao carrasco. Ele fez tanta sujeira, lambuzou-se a  noite inteira, até ficar saciado. E nem bem amanhecia, partiu numa nuvem fria, com seu zepelim prateado.
Num suspiro aliviado, ela se virou pro lado e tentou até sorrir... Mas logo raiou o dia e a cidade, em cantoria, não deixou ela dormir.

Joga pedra na Geni!
Joga bosta na Geni!
Ela é feita pra apanhar!
Ela é boa de cuspir!
Ela dá pra qualquer um!
Maldita Geni!




Então, não lembro bem se foi na quinta ou na sexta série, mas lá no Arquidiocesano, a Geni foi minha professora de laboratório por um ano. Eu era uma das primeiras da lista de chamada porque meu nome começa com A, obviamente. As mesas eram organizadas em ordem numérica então eu me sentava bem na frente da Geni, e pertinho, e todos só falavam numa coisa: ela cultivava esse péssimo hábito de cuspir enquanto dava aula. E então era só disso que se conversava quando mencionada aquela aula de ciências, aquele laboratório, mais bem equipado do que o deu muitas faculdades, onde poderíamos ter aprendido coisas incríveis, mas não aprendi, fiquei ouvindo as fofocas sobre a Geni. Mesmo sem concordar, sem entender, sem ter nada a dizer, eu contribuía com minha parcela diária de baboseiras.
Agora o importante foi o dia em que algum retardado descobriu essa arte do Chico e decidiu atribuí-la à nossa própria Geni, e então todos gritavam: "taca pedra na Geni, taca pedra na Geni!..." o resto você já sabe. E eu estava junto, e eu andava junto, e eu não contradizia esse bando de retardados, mal educados, desrespeitosos, invejosos, egocêntricos e egoístas, e eu os chamava de amigos e amigas, e queria ser como eles, e alisei meus cabelos para isso, e me calei para isso, e troquei os óculos por lentes de contato para isso, e calei-me perante seguidas injustiças e participei delas, por causa dessa minha fome de popularidade (quem me alertou foi a pessoa com quem eu menos conversava, George Kawashita, irmão de Juli, muito obrigada amigo!). Um dia, na festa da Alice, saí e fomos à casa de Caio porque Giovanna o beijava quando tinha vontades. E descemos a grande ladeira pra tocar a campainha da Geni e sair correndo de madrugada, e corremos descalços pra tacar a nossa própria pedrinha especialíssima em forma de som estridente na nossa querida mestra Geni. E eu dei risada, e tirei fotos naquela noite, e me achava super linda e gostosona. Uhul, que corpo hein garota! 

Que ironia, que mentira, saber agora que tudo isso não valeu de nada.
E que a verdadeira Geni sou eu.
A vida tem mesmo jeitos muito lindos de nos apresentar às nossas próprias pessoas... 

sábado, agosto 6

e quem é que sou eu?

Ultimamente tem vindo cada vez menos a ideia de produzir algo que me faça dizer a palavra literatura, e muito mais qualquer coisa que pareça com uma conversa. Não sei dizer bem por que, e isso é legal. Vem sempre sempre uma urgência por falar quase sempre com praticamente só seres de Orion e com poucas pausas apenas para descansar as pálpebras... E isso deve ser respeitado.

E falando tanto comecei a ouvir-me bem melhor, e talvez uma coisa precise da outra e sejam partes diferentes de uma mesma pá, pá de cavar fundo a alma de tudo que se vê e sente, seja ou não seja fisicamente. É muita magia ver a vida ir se desenvolvendo mais ou menos na sua cara - só pra ser franca apesar de feiamente -, e poder fazê-la como se quer.

Não sei muito bem o que eu vim dizer aqui mas acho que deu vontade de transcrever ou tentar essa sensação de oneness, de completude, de preenchimento independente que é bem gostosa e chega mesmo a transbordar. O que isso é mais é um desejo, crença de que cresça e atinja quantos der, porque no fim das contas só acontece antes em alguns casulos porque a primavera está chegando e borboletas inúmeras e todas, frágeis e feias por si mesmas talvez - mas juntas coloridas - são necessárias para o voo infalível e tão merecido, tanto, há tantos...
E uma vez sentida dentro desse rebanho imenso, carregamento de vidas pelo ar, vento, deixo para trás todo o meu e me transformo simultaneamente em cada uma das partes que me querem refletir, perceber-me. Bonitamente tornamo-nos uma só coisa, estranha e amorfa da melhor forma imaginável. Cadê eu? Não sei, mas sinto cada momento intensamente como se eu fosse o próprio momento. E devo perguntar mais alguma coisa: quem é que não o é?

Pra onde tudo isso vai é que no fim não sei se sou, mas sinto estar. E ao perguntar-me de novo o que se deu com a ovelha negra, da vida, quem tornei-me quando crescida, só posso dizer uma coisa resumindo tudo;
nada.