um mergulhador, que apenas fazia o seu trabalho.
até que um dia decidiu aventurar-se
e indo um pouco mais além das profundezas onde estendera suas bandeirinhas,
descobrindo um pouco mais das névoas que permitia que lhe amedrontassem,
nadou entre flores roxas e amarelas, duvidou que estivesse realmente em alto mar. que coral é esse, meu deus?
meu deus não respondeu, mas silenciosamente deixou escapar uma.. dica
bem à sua frente estava ela. resplandecia. hipnotizado, cada bolha de oxigênio era gasta com o esforço de um bravo marinheiro entregando-se a um gigantesco redemoinho. Desejou o êxtase daquele contato.
Era simples e rara. Solitária.
Uma pérola, assim de um jeito inovador, depois de tantos sete mares percorridos, de tantas conchas guardadas, de verdadeiros segredos cuja vida superficial seria apenas passado, não fora sua obstinada vida de detetive lá embaixo.
Uma pérola sem concha. Pensou duas vezes. Quatro. Oito. Como podia ser? Não era mais grão de areia;
tanto brilhava e conquistara seu olhar, a pequena sereia esférica e muda.
E no entanto cada pérola que juntara para construir o colar que sua avó ganhou de aniversário naquele ano(amantes não couberam na Sua existência superficial), tivera que tirar da concha, desproteger. Todas as bolinhas de antes dependiam dele para serem mostradas ao mundo e para sentirem até mesmo o gosto da própria água que envolvia sua casca e sua vida. Agora, não.
Essa estava sozinha e era sozinha. Sem nada de zinha, apenas só. Na rua.
Tão frágil e ao mesmo tempo extremamente fascinante, seus cabelos loiros ondulavam acompanhando o movimento convidativo dos quadris, descobertos, dos braços, à mostra, do corpo todo exposto ao vento no olhar da clientela insone.
Cruzando de uma calçada a outra, o que ela não poderia sem a sustentação que aqueles olhares herdados ao longo da masculinumanidade lhe forneciam, era aquela aceitação a ponte onde pisava, e a pérola apoiada no coral milenar. No olhar a solidão coberta de orgulho e vaidade, tudo coladinho pela massa suja de despreocupação.
Seu próximo passo é incerto, não se sabe se o salto vai virar. Ela anseia por cada segundo, e a pérola não sabe se vai conseguir continuar secretando a si mesma; isso não é beleza, é vulgaridade, acusou o mergulhador.
Como toda hipnose essa tem fim e surpreende e deixa suas marcas, na bola que fica e no homem que passa.
E então se vê que a pérola assim nua é um erro, e apenas isso, e apenas, que pena. Que poderia ser inteira só depois da libertação, só com alguém lhe salvando a vida e fazendo bater um coração em seu peito sólido.
Nada disso veio. Nada disso teve.
Então era apenas uma pérola, então era apenas uma mulher na rua, dourada intimando com suas janelas, mais abertas para a vazia dor que carrega do que ela poderia supor.
mas como todo semáforo abre, qualquer medidor de oxigênio irá piscar.
e aí o homem vai acelerar, o que tem pé de patos, voltará para respirar,
e tudo isso vai continuar sufocando e espremendo aquela pérolamulher pra dentro de si, da própria escuridão e de tudo o que não conhece, até que instalem as devidas sinalizações em todos os perigosos e inúmeros caminhos com os quais cruza, e que em suma só levam a ela.
sexta-feira, dezembro 31
Era uma vez - várias vezes,
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quarta-feira, dezembro 29
natureza, morta?
passando pela praça e vi, eu vi.
dois troncos caídos, mortos, contorcidos.
envolvidos num abraço de amor tão perpétuo como nunca foi visto antes.
daqueles galhos que apodreciam, vazava uma vontade de vida e de ser no outro tão grande
que mesmo sem aquela, esta era. estava ali.
de alguma forma aquela energia forte de uma planta pulsava naquele abraço em decomposição.
mas não era feio.
os galhos contornando os desenhos um do outro, desenhando no verde da grama e no azul do céu que se fez pano de fundo arabescos inéditos, faziam sorrir.
e enquanto tentava existir ali o que não podia ter sido, o que raízes perversas separaram por anos e anos, (no que eu classificaria como uma missão muitíssimo bem sucedida), os figurantes roubavam a cena.
é, é tão bonito ver algum amor.
um deles nascia há poucos metros. já ouviu-se dizer que eles sugavam das cascas shakespearianas toda aquela energia, mas na verdade simplesmente eram jovens e eram.
e o mundo era só deles.
e quem passasse entenderia, e entendeu.
não há o que esconda aquela entrega, que disfarçou sua efemeridade de uma vontade imensa, e fez sorrir.
e me fez querer que passasse por aqui uma brisa daquelas, que abraça, que leva, que faz-nos deixar sermos levados.
mas preciso mesmo é de um vendaval.
a esperança que não vivia mais nas folhas das árvores, postumamente realizadas, emanava do verde da camisa que ele usava, e do brilho do sorriso da menina, e deu pra pensar que naquele momento, amor era aquele. amor era aquilo. e era os dois, e era tanto, e era tudo!
e ainda assim não era eu, porque não digo meu. algo tão forte e majestoso jamais caberia num atestado de posse.
e talvez o espelho funcione agora,
e por trás de toda a fumaça velha que insiste em se acumular,
vislumbrei aqui, quem sabe, a centelha nascendo, e orei.
pra que ela saiba abocanhar com ferocidade o fogo, de lágrimas ou línguas, que a faça viver mais.
dois troncos caídos, mortos, contorcidos.
envolvidos num abraço de amor tão perpétuo como nunca foi visto antes.
daqueles galhos que apodreciam, vazava uma vontade de vida e de ser no outro tão grande
que mesmo sem aquela, esta era. estava ali.
de alguma forma aquela energia forte de uma planta pulsava naquele abraço em decomposição.
mas não era feio.
os galhos contornando os desenhos um do outro, desenhando no verde da grama e no azul do céu que se fez pano de fundo arabescos inéditos, faziam sorrir.
e enquanto tentava existir ali o que não podia ter sido, o que raízes perversas separaram por anos e anos, (no que eu classificaria como uma missão muitíssimo bem sucedida), os figurantes roubavam a cena.
é, é tão bonito ver algum amor.
um deles nascia há poucos metros. já ouviu-se dizer que eles sugavam das cascas shakespearianas toda aquela energia, mas na verdade simplesmente eram jovens e eram.
e o mundo era só deles.
e quem passasse entenderia, e entendeu.
não há o que esconda aquela entrega, que disfarçou sua efemeridade de uma vontade imensa, e fez sorrir.
e me fez querer que passasse por aqui uma brisa daquelas, que abraça, que leva, que faz-nos deixar sermos levados.
mas preciso mesmo é de um vendaval.
a esperança que não vivia mais nas folhas das árvores, postumamente realizadas, emanava do verde da camisa que ele usava, e do brilho do sorriso da menina, e deu pra pensar que naquele momento, amor era aquele. amor era aquilo. e era os dois, e era tanto, e era tudo!
e ainda assim não era eu, porque não digo meu. algo tão forte e majestoso jamais caberia num atestado de posse.
e talvez o espelho funcione agora,
e por trás de toda a fumaça velha que insiste em se acumular,
vislumbrei aqui, quem sabe, a centelha nascendo, e orei.
pra que ela saiba abocanhar com ferocidade o fogo, de lágrimas ou línguas, que a faça viver mais.
segunda-feira, dezembro 27
fraquezas
Hoje, vindo embora, lembrei-me de, mais, uma coisa que pensei.
Que preparei, quase pronta,
na ponta da língua.
E que depois, nova(e tão previsível)mente deixei a vida
me impedir de por no papel das vias de fato.
mas chega de dentro,
eis a ideia.
das minhas entranhas saem os ventos que carregam corpos com almas, e também outros desprovidos delas.
suavemente esmago-os contra o caos diário,
nos acidentes metálicos, nas hierarquias travestidas de arranha-céus, nas famílias que desabam sobre suas cabeças frágeis e vazias.
Esvazio-os.
Despejo todo o conteúdo que se possa chamar de humano no meu corpo, e quando chove em mim exalo o que se torna a terra deles, sem nenhum glamour, sem era uma vez. não se lembram de quando ou como eu era. eu simplesmente sou e sim, assim, os arrasto para dentro de mim.
Há muitas coisas que não absorvo, como esse soro de sentimento que deixo escorrer para dentro dos meus córregos pútridos, onde um dia já correu a água que me fazia viver.
Mas sei guardar muito bem, aqui mesmo do jeito que me convier, as chances, as esperanças. Encerro e quebro as escadas douradas. Meu céu é exclusividade.
deixei de acreditar no poder daquilo que algum dia alguns tolos plantaram na minha superfície. Sou alérgica a natureza.
Sou assim porque sou, na verdade, uma caixa. Guardo vaidades e interesses, e sobretudo o egoísmo majoritário. Covarde. Sei muito bem que é ele o meu médico,
e por isso devoro a quem se aproxima. Adentrar na caixa que sou é ao mesmo tempo revelar seu conteúdo de Medusa perante os olhos, e cuidado. Provavelmente você ainda não sabe escapar.
Precisam de mim. Pelo menos no verde e amarelo tenho certeza que é por isso que não rompem meus cadeados. Tolos.
Quisera eu me espalhar por aí e levar um pouco do meu negro ao verde e emprestar as minhas luzes às estrelas do campo. Seria muito mais poderosa se me ensinassem a encolher.
Por enquanto não sei. E não me dizem.
Então eu tento inutilmente deduzir essa fórmula incoerente. No caminho, vou varrendo algumas vidinhas pra baixo do tapete..
É o que custa. Gostaria de conseguir pedir ajuda. Prazer, me chamam cidade.
Que preparei, quase pronta,
na ponta da língua.
E que depois, nova(e tão previsível)mente deixei a vida
me impedir de por no papel das vias de fato.
mas chega de dentro,
eis a ideia.
das minhas entranhas saem os ventos que carregam corpos com almas, e também outros desprovidos delas.
suavemente esmago-os contra o caos diário,
nos acidentes metálicos, nas hierarquias travestidas de arranha-céus, nas famílias que desabam sobre suas cabeças frágeis e vazias.
Esvazio-os.
Despejo todo o conteúdo que se possa chamar de humano no meu corpo, e quando chove em mim exalo o que se torna a terra deles, sem nenhum glamour, sem era uma vez. não se lembram de quando ou como eu era. eu simplesmente sou e sim, assim, os arrasto para dentro de mim.
Há muitas coisas que não absorvo, como esse soro de sentimento que deixo escorrer para dentro dos meus córregos pútridos, onde um dia já correu a água que me fazia viver.
Mas sei guardar muito bem, aqui mesmo do jeito que me convier, as chances, as esperanças. Encerro e quebro as escadas douradas. Meu céu é exclusividade.
deixei de acreditar no poder daquilo que algum dia alguns tolos plantaram na minha superfície. Sou alérgica a natureza.
Sou assim porque sou, na verdade, uma caixa. Guardo vaidades e interesses, e sobretudo o egoísmo majoritário. Covarde. Sei muito bem que é ele o meu médico,
e por isso devoro a quem se aproxima. Adentrar na caixa que sou é ao mesmo tempo revelar seu conteúdo de Medusa perante os olhos, e cuidado. Provavelmente você ainda não sabe escapar.
Precisam de mim. Pelo menos no verde e amarelo tenho certeza que é por isso que não rompem meus cadeados. Tolos.
Quisera eu me espalhar por aí e levar um pouco do meu negro ao verde e emprestar as minhas luzes às estrelas do campo. Seria muito mais poderosa se me ensinassem a encolher.
Por enquanto não sei. E não me dizem.
Então eu tento inutilmente deduzir essa fórmula incoerente. No caminho, vou varrendo algumas vidinhas pra baixo do tapete..
É o que custa. Gostaria de conseguir pedir ajuda. Prazer, me chamam cidade.
terça-feira, dezembro 7
Ceifando
depois que eu vi. quando eu o vi, assim, daquele jeito,
tive
de arrastar minhas implacáveis asas,
com as pontas rasgadas, quebradas e pobres, pelo chão que exala terra molhada.
E indo em direção ao coração morno que o peito cobria, desajeitado,
percebi que não dava pra senti-lo bater.
Nem mesmo de muito perto. Perguntei-me o que seria a criatura ali dentro. Quis chamá-la fria,
mas tinha mais vida do que isso. Então deixei
e como era meu dever, e disso todos sempre souberam, cravei as garras naquele frágil
peito
de onde tirei o ensanguentado quebradiço. Como batia,
que proeza. quis pra mim um igual. Eu saberia esquentá-lo, ou pelo menos assim pensava.
respingando o verde que brotou de mim praquilo que eu não sabia ter,
costurei nesse coração um pedaço de minhas assas, que guardei da época quando elas ainda eram boas.
quando alguma coisa ainda fazia valer todo o funcionamento, todo o organismo perfeito que eu era,
e a isso chamou-se bondade.
tapei de novo a nesga que teimava em entrar no poço fundo das minhas memórias, e terminei o trabalho.
senti alfaiate, senti fada madrinha, e deixei o vento cuidar da Cinderela roubada,
sonhei que ele encarregava-se de lhe por numa boa casa, com cobertor e lareira e chocolate quente no inverno.
Não sei o que lhe aconteceu.
Virei as costas para o corpo, que Agora sim era frio. E por minha causa.
Mas não posso evitar,
e como é para isso que sirvo, rumei ao próximo serviço da noite.
tive
de arrastar minhas implacáveis asas,
com as pontas rasgadas, quebradas e pobres, pelo chão que exala terra molhada.
E indo em direção ao coração morno que o peito cobria, desajeitado,
percebi que não dava pra senti-lo bater.
Nem mesmo de muito perto. Perguntei-me o que seria a criatura ali dentro. Quis chamá-la fria,
mas tinha mais vida do que isso. Então deixei
e como era meu dever, e disso todos sempre souberam, cravei as garras naquele frágil
peito
de onde tirei o ensanguentado quebradiço. Como batia,
que proeza. quis pra mim um igual. Eu saberia esquentá-lo, ou pelo menos assim pensava.
respingando o verde que brotou de mim praquilo que eu não sabia ter,
costurei nesse coração um pedaço de minhas assas, que guardei da época quando elas ainda eram boas.
quando alguma coisa ainda fazia valer todo o funcionamento, todo o organismo perfeito que eu era,
e a isso chamou-se bondade.
tapei de novo a nesga que teimava em entrar no poço fundo das minhas memórias, e terminei o trabalho.
senti alfaiate, senti fada madrinha, e deixei o vento cuidar da Cinderela roubada,
sonhei que ele encarregava-se de lhe por numa boa casa, com cobertor e lareira e chocolate quente no inverno.
Não sei o que lhe aconteceu.
Virei as costas para o corpo, que Agora sim era frio. E por minha causa.
Mas não posso evitar,
e como é para isso que sirvo, rumei ao próximo serviço da noite.
domingo, dezembro 5
Estranho
saber que quem poderia ver não vai,
mesmo que eu queira que queiram. cada um deve querer o seu próprio querer, bem ou mal, por si. para si ou para o mundo, tanto faz, mas decisão feita sozinha, sombra na ilha deserta da escolha que se tem, faz e dá.
não é quem diz buscar algo do tipo que virá aqui catar os caquinhos de coração,
nem mesmo por má-fé, essa ausência. talvez nem premeditada seja, apenas jeito de ser.
jeito de ser o mesmo. nem maior como eu imagino que seria, nem diferente de jeito nenhum,
ou talvez esteja mudando a cada ar que expira, sempre que vê uma borboleta que passou por mim,
rápido demais.
sempre tão rápido demais..
e você, porquê, não vai ficar como aquele gosto ruim aqui dentro,
lanço-lhe aos ventos como as cinzas do velho amado que ainda não vivi.
que os trançados do seu caminho de contorcionista mágico não desfaçam o fardo que carregas, e que te faz existir.
que o fato de ele não abrir essa caixa pública onde depositas todo dia a alma e o desejo do pulsante vermelho, não lhe faça parar de crescer e de querer ser,
para si, que seja,
aquele mais que o mundo do outro não quer.
e tudo bem.
mesmo que eu queira que queiram. cada um deve querer o seu próprio querer, bem ou mal, por si. para si ou para o mundo, tanto faz, mas decisão feita sozinha, sombra na ilha deserta da escolha que se tem, faz e dá.
não é quem diz buscar algo do tipo que virá aqui catar os caquinhos de coração,
nem mesmo por má-fé, essa ausência. talvez nem premeditada seja, apenas jeito de ser.
jeito de ser o mesmo. nem maior como eu imagino que seria, nem diferente de jeito nenhum,
ou talvez esteja mudando a cada ar que expira, sempre que vê uma borboleta que passou por mim,
rápido demais.
sempre tão rápido demais..
e você, porquê, não vai ficar como aquele gosto ruim aqui dentro,
lanço-lhe aos ventos como as cinzas do velho amado que ainda não vivi.
que os trançados do seu caminho de contorcionista mágico não desfaçam o fardo que carregas, e que te faz existir.
que o fato de ele não abrir essa caixa pública onde depositas todo dia a alma e o desejo do pulsante vermelho, não lhe faça parar de crescer e de querer ser,
para si, que seja,
aquele mais que o mundo do outro não quer.
e tudo bem.
sábado, novembro 20
lá na bolha há..
Nasceu assim, como todas nós, de um sopro.
E enquanto subia via o mundo ficar pequeno ao seu redor e engoli-la, e via o mundo que criava no reflexo curvo que saía dela e atingia os olhos dos passantes, dos brincantes, daquela que lhe fez, como todas nós.
Uma leve brisa a separou das outras bolhas, e pela deformação do mundo que via ela pôde pela primeira vez analisar seu próprio tamanho. Não soube dizer se era grande ou pequena,
certificou-se, entretanto, de que era suficiente pra ser leve e ainda assim percebida, evitando as ágeis mãos fatais das crianças que brincavam pelo parque.
Viu o fim de sua família, quando uma moça que passava correndo esbarrou no balde de água e sabão, seu berço no chão.
Sentiu o sal das lágrimas de mamãe tocarem o chão, e desesperada mirou as demais remanescentes da jornada ascendente de que participava, pensando quanto ainda duraria.
Temeu o pássaro voraz que quase a atravessou. Nessa hora, sozinha no céu, quis ser plástico, quis ser de basquete, quis ser bola de cristal e odiou o sabão que era seu corpo todo. E ainda assim, continuava.
Por vontade de quem?
Não respondeu à essa indagação que continuava dentro dela desde que uma boca a soprara pra fora de um aro. Desde que respirou o mundo no qual já sabia não poder pertencer por mais do que alguns breves segundos.
E agora os minutos decorridos lhe traziam experiências. E tão rapidamente já se sentia uma bolha ansiâ. Uma bola velha, durava amis que as outras, sentia-se cheia, preenchida por um conteúdo que não tinha criado, mas apenas deixado permear-se por suas paredes frágeis de reflexos multicoloridos que lhe garantiam tudo aquilo que tinha. Não soube se aquilo era bom
Afinal, saber de todos os perigos que sabia e que lhe permitiam ser a bolha certa, não a transformaram em nada mais concreto, e nem iriam. Seu destino era estourar e disso ela se certificava com cada nova sensação que absorvia do mundo.
Soube que todo o seu colorido, em provavelmente menos tempo do que poderia ter calculado, estava prestes a se desfazer em algumas gotas de água suja que se uniriam à enxurrada, que sujariam o sapato de alguém, e que os sorrisos que despertara nas crianças se tornariam AAAaa-não-suporto-essa-sujeira-de-São-Paulo"s com a sua fragmentação.
E que pena. Não tinha mais bolhas com as quais conversar. Nem sabia se tinha voz.
Pensou inútil toda aquela discussão silenciosa com sua própria.. tinah cabeça de bolha, mente de bolha? não não, só consigo.. Perdera a oportunidade de viver como e com as outras a sua tão frágil vida?
Tarde agora pra saber.
Tarde era, de verdade; percebeu o pôr-do-sol.
E sugou toda a vermellhidão do céu imenso que era sim seu lugar. Independeu de todo o resto e de todas as outras, e de tudo aquilo a que não tinha dado tempo de se prender.
E pela primeira vez, quis olhar para o alto. E olhou.
Lá embaixo, alguém sentiu uma gota pesada cair na testa. Limpou irritada o pouquinho de maquiagem que escorria, que saco, parecia sabão, aquilo era à prova d'água!
E mais nada.
E enquanto subia via o mundo ficar pequeno ao seu redor e engoli-la, e via o mundo que criava no reflexo curvo que saía dela e atingia os olhos dos passantes, dos brincantes, daquela que lhe fez, como todas nós.
Uma leve brisa a separou das outras bolhas, e pela deformação do mundo que via ela pôde pela primeira vez analisar seu próprio tamanho. Não soube dizer se era grande ou pequena,
certificou-se, entretanto, de que era suficiente pra ser leve e ainda assim percebida, evitando as ágeis mãos fatais das crianças que brincavam pelo parque.
Viu o fim de sua família, quando uma moça que passava correndo esbarrou no balde de água e sabão, seu berço no chão.
Sentiu o sal das lágrimas de mamãe tocarem o chão, e desesperada mirou as demais remanescentes da jornada ascendente de que participava, pensando quanto ainda duraria.
Temeu o pássaro voraz que quase a atravessou. Nessa hora, sozinha no céu, quis ser plástico, quis ser de basquete, quis ser bola de cristal e odiou o sabão que era seu corpo todo. E ainda assim, continuava.
Por vontade de quem?
Não respondeu à essa indagação que continuava dentro dela desde que uma boca a soprara pra fora de um aro. Desde que respirou o mundo no qual já sabia não poder pertencer por mais do que alguns breves segundos.
E agora os minutos decorridos lhe traziam experiências. E tão rapidamente já se sentia uma bolha ansiâ. Uma bola velha, durava amis que as outras, sentia-se cheia, preenchida por um conteúdo que não tinha criado, mas apenas deixado permear-se por suas paredes frágeis de reflexos multicoloridos que lhe garantiam tudo aquilo que tinha. Não soube se aquilo era bom
Afinal, saber de todos os perigos que sabia e que lhe permitiam ser a bolha certa, não a transformaram em nada mais concreto, e nem iriam. Seu destino era estourar e disso ela se certificava com cada nova sensação que absorvia do mundo.
Soube que todo o seu colorido, em provavelmente menos tempo do que poderia ter calculado, estava prestes a se desfazer em algumas gotas de água suja que se uniriam à enxurrada, que sujariam o sapato de alguém, e que os sorrisos que despertara nas crianças se tornariam AAAaa-não-suporto-essa-sujeira-de-São-Paulo"s com a sua fragmentação.
E que pena. Não tinha mais bolhas com as quais conversar. Nem sabia se tinha voz.
Pensou inútil toda aquela discussão silenciosa com sua própria.. tinah cabeça de bolha, mente de bolha? não não, só consigo.. Perdera a oportunidade de viver como e com as outras a sua tão frágil vida?
Tarde agora pra saber.
Tarde era, de verdade; percebeu o pôr-do-sol.
E sugou toda a vermellhidão do céu imenso que era sim seu lugar. Independeu de todo o resto e de todas as outras, e de tudo aquilo a que não tinha dado tempo de se prender.
E pela primeira vez, quis olhar para o alto. E olhou.
Lá embaixo, alguém sentiu uma gota pesada cair na testa. Limpou irritada o pouquinho de maquiagem que escorria, que saco, parecia sabão, aquilo era à prova d'água!
E mais nada.
quarta-feira, outubro 27
Ela ganhou um diário de presente.
Tudo bem, sem presunção.
Não era um diário e apenas um caderno em branco.
Não era ela e apenas eu.
Na verdade, não se sabe nem mesmo se foi um presente ou um achado. Talvez uma daquelas heranças do destino, que caem na cabeça de algum desavisado no dia seguinte da sua grande decisão de não ficar mais esperando por elas.
Seja qual for o título certo, caiu em suas mãos frágeis de criança sedenta de mundo um montão de folhas, limpas e pautadas, charmosamente unidas por um fio rosa de cetim que faz lembrar até hoje o cheiro de vó da casa onde a diversão foi sempre tão lei quanto o amor.
E ela o abriu, mergulh. [calma; agora voltando para a decisão de que era apenas eu, porque era mesmo afinal de contas]. Eu o abri, mergulhando nas páginas tão virgens quanto o que eu conhecia da vida ou de mim. E foi lindo aquele amor à primeira vista, e foi instantâneo. E a dona do cheiro da casa mágica e maluca me ensinou a bordar os rabinhos de porco no começo e no final do elefante, e me ensinou a desenhar o nome mais bonito do mundo, e me contou que era meu.
Desde então eu possuí esse caderno, esse diário, muito mais do que eu pensava. E agora quando ele está prestes a se fechar (queira Deus que tardiamente), certamente bem depois de vários outros que as velhinhas donas de outras casas cheirosas deram para os seus pacotinhos, é que dá pra ver o quanto ele foi usado, rabiscado, castigado pelos risos ferozes e pela brutalidade das chuvas salgadas abafadas no travesseiro.
O tempo inteiro,mesmo quando escrever fisicamente foi ficando pra depois e eu pensei ter trancafiado o caderninho em algum baú empoeirado do quarto também cor-de-rosa que só pode ser o seu lugar, ele estava sendo usado. A todo momento, numa silenciosa argumentação travada comigo a cada dia.
Nele eu escrevi minha infância.
Tchau, caderninho. E muito obrigada.
Não era um diário e apenas um caderno em branco.
Não era ela e apenas eu.
Na verdade, não se sabe nem mesmo se foi um presente ou um achado. Talvez uma daquelas heranças do destino, que caem na cabeça de algum desavisado no dia seguinte da sua grande decisão de não ficar mais esperando por elas.
Seja qual for o título certo, caiu em suas mãos frágeis de criança sedenta de mundo um montão de folhas, limpas e pautadas, charmosamente unidas por um fio rosa de cetim que faz lembrar até hoje o cheiro de vó da casa onde a diversão foi sempre tão lei quanto o amor.
E ela o abriu, mergulh. [calma; agora voltando para a decisão de que era apenas eu, porque era mesmo afinal de contas]. Eu o abri, mergulhando nas páginas tão virgens quanto o que eu conhecia da vida ou de mim. E foi lindo aquele amor à primeira vista, e foi instantâneo. E a dona do cheiro da casa mágica e maluca me ensinou a bordar os rabinhos de porco no começo e no final do elefante, e me ensinou a desenhar o nome mais bonito do mundo, e me contou que era meu.
Desde então eu possuí esse caderno, esse diário, muito mais do que eu pensava. E agora quando ele está prestes a se fechar (queira Deus que tardiamente), certamente bem depois de vários outros que as velhinhas donas de outras casas cheirosas deram para os seus pacotinhos, é que dá pra ver o quanto ele foi usado, rabiscado, castigado pelos risos ferozes e pela brutalidade das chuvas salgadas abafadas no travesseiro.
O tempo inteiro,mesmo quando escrever fisicamente foi ficando pra depois e eu pensei ter trancafiado o caderninho em algum baú empoeirado do quarto também cor-de-rosa que só pode ser o seu lugar, ele estava sendo usado. A todo momento, numa silenciosa argumentação travada comigo a cada dia.
Nele eu escrevi minha infância.
Tchau, caderninho. E muito obrigada.
terça-feira, outubro 5
E eu
Querendo, numa esquina qualquer desses caminhos que a vida ou o "acaso" escolhem pra gente, topar com um anjo, um assim bem inesperado, que presenteie meu sorriso com uma asa que traz a tiracolo. Asa sua, primeira, estimada, roubada de um canteiro de secar asas num subúrbio da sua cidade, inestimável, cintilante, recem comprada, que transpire a cada bater a vasta experiência cravada nos detalhes-defeitos de suas penas tortas.
E pensando que ele silencioso apenas entregaria-me o divino presente, com toda a naturalidade que se imagina inerente a sua pureza angelical, e me dirá que a use bem. E que não pare de sorrir, como o par alado cujo trabalho não vai cessar nem quando a ultima pena cair. Nesse momento em sua mente ele me vera livre como a pomba que imaginou trazendo a paz de meus alvos dentes num ramalhete de esperança, eterna centelha que tudo preenche.
E, como venho querendo já há certos instantes, me dará sua mão e também o céu num beijo de despedida. Deixo o amigo momentâneo mas o carrego nas asas que eram com ele e que agora são em mim o eu que toca o mundo de cima, mundo leve e claro como num sonho, e no qual farei real qualquer desejo meu. E após ver bem tudo o que me apetece, e apreciar a beleza de muitas flores vivendo e murchando e voltando a ser Terra e famílias crescendo e outras se rasgando e corados cansados e secos, rejuvenescerem a trilha sonora tão conhecida de mais um capítulo no livro dos amores; tendo já as asas maiores que o céu que me carrega e o estômago farto de tanto devorar o banquete da vida num mundo onde pus meu coração e o fiz florescer, deixarei que ele mande em mim.
E me coloque mais uma vez no caminho de onde vim, mas no novo espaço que agora me pertence, do pleno descanso harmonioso do silencio do condomínio eterno, onde as asas brancas tentarão (quem sabe em vão) nascer em lírios, mas não eu, não.
Eu deitada verei que o que fiz foi bom, direi a meu anjo ate logo e outras palavras magicas de que o julgue merecedor, e me deixarei ate que enfim ser vento, e o tempo apenas ser.
E pensando que ele silencioso apenas entregaria-me o divino presente, com toda a naturalidade que se imagina inerente a sua pureza angelical, e me dirá que a use bem. E que não pare de sorrir, como o par alado cujo trabalho não vai cessar nem quando a ultima pena cair. Nesse momento em sua mente ele me vera livre como a pomba que imaginou trazendo a paz de meus alvos dentes num ramalhete de esperança, eterna centelha que tudo preenche.
E, como venho querendo já há certos instantes, me dará sua mão e também o céu num beijo de despedida. Deixo o amigo momentâneo mas o carrego nas asas que eram com ele e que agora são em mim o eu que toca o mundo de cima, mundo leve e claro como num sonho, e no qual farei real qualquer desejo meu. E após ver bem tudo o que me apetece, e apreciar a beleza de muitas flores vivendo e murchando e voltando a ser Terra e famílias crescendo e outras se rasgando e corados cansados e secos, rejuvenescerem a trilha sonora tão conhecida de mais um capítulo no livro dos amores; tendo já as asas maiores que o céu que me carrega e o estômago farto de tanto devorar o banquete da vida num mundo onde pus meu coração e o fiz florescer, deixarei que ele mande em mim.
E me coloque mais uma vez no caminho de onde vim, mas no novo espaço que agora me pertence, do pleno descanso harmonioso do silencio do condomínio eterno, onde as asas brancas tentarão (quem sabe em vão) nascer em lírios, mas não eu, não.
Eu deitada verei que o que fiz foi bom, direi a meu anjo ate logo e outras palavras magicas de que o julgue merecedor, e me deixarei ate que enfim ser vento, e o tempo apenas ser.
domingo, agosto 15
,Sucessão
Hoje vou sair.
Vou sair e nascer como uma estrela, e brilhar como uma flor.
Se as raízes de tudo o que quero aquecer e transmitir ao universo escuro profundo e soberano, aquele que às vezes profano se apodera de mim e tampa minha luz arriscando um incêndio imenso, vingarem na terra incerta sem piso e sem segurança que é o desconforto de viver e de ser estrela, então o orvalho da noite quente que absorve o mundo e suas angústias me abençoará.
Quando enfim cair sobre um corpo vivo e latejante uma nesga da minha luz, distante, sentirei como pela primeira vez a utilidade. A utilidade que já se provava forte e decidida dentro da minha minúcia de grão quando toda a explosão que agora parte de dentro do meio de mim ainda era reclusa em uma pequena cápsula brilhante e discreta, e esquecera-se de que tinha dentro de si todo o poder e o fogo de uma estrela-flor.
Então minha noção e meu sentimento se expandirão e perceberei como atinjo tudo, perto e distante. Como minhas raízes flutuam e penetram os mistérios do céu maravilhoso e reviram a terra que tenta cobrí-las, e são notadas pelos passantes por cima delas, e modificam com sua delicadeza o asfalto, que se julgava soberano. Como meus raios chamam e puxam coisas e planetas que se aglomeram e organizam e passam a viver em função da minha existência de estrela, e eu poderei girar apenas em torno de mim mesma, e não sair, mas ficar e fazer saírem, e ter vidas que levem minha vida a outros cantos, e ter cantos onde minha vida chegue e se espalhe como um perfume pelo qual se espera sem saber há muito, há tanto, há quanto tempo?
Vou sair e nascer como uma estrela, e brilhar como uma flor.
Se as raízes de tudo o que quero aquecer e transmitir ao universo escuro profundo e soberano, aquele que às vezes profano se apodera de mim e tampa minha luz arriscando um incêndio imenso, vingarem na terra incerta sem piso e sem segurança que é o desconforto de viver e de ser estrela, então o orvalho da noite quente que absorve o mundo e suas angústias me abençoará.
Quando enfim cair sobre um corpo vivo e latejante uma nesga da minha luz, distante, sentirei como pela primeira vez a utilidade. A utilidade que já se provava forte e decidida dentro da minha minúcia de grão quando toda a explosão que agora parte de dentro do meio de mim ainda era reclusa em uma pequena cápsula brilhante e discreta, e esquecera-se de que tinha dentro de si todo o poder e o fogo de uma estrela-flor.
Então minha noção e meu sentimento se expandirão e perceberei como atinjo tudo, perto e distante. Como minhas raízes flutuam e penetram os mistérios do céu maravilhoso e reviram a terra que tenta cobrí-las, e são notadas pelos passantes por cima delas, e modificam com sua delicadeza o asfalto, que se julgava soberano. Como meus raios chamam e puxam coisas e planetas que se aglomeram e organizam e passam a viver em função da minha existência de estrela, e eu poderei girar apenas em torno de mim mesma, e não sair, mas ficar e fazer saírem, e ter vidas que levem minha vida a outros cantos, e ter cantos onde minha vida chegue e se espalhe como um perfume pelo qual se espera sem saber há muito, há tanto, há quanto tempo?
quarta-feira, julho 28
artesanato.
quase todas as vezes,
a gente simplesmente acaba sendo o que não queria
e eu espero que tudo o que falta
seja um pouco de movimento,
pra tirar de toda essa louca energia
a capacidade e a chance de criar um pouco de alegria.
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