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quinta-feira, janeiro 6

Olha, um ano!

Ah, chega!
ainda me sinto em pedaços, pela diversidade. mas não quero mais que eles caibam nessas gaiolas e se dêem as costas,
eles fazem parte um do outro e se puxam e empurram num jogo maluco
de multiplicação de forças e divisão totalmente aleatória dos prejuízos e imprevistos,
tão frequentes.
pensei e vou mudar esse fundo, abrir de novo o baú e descobrir mais do muito que sempre mudou,
e reciclar os trapos velhos que sobraram ao fundo.
talvez expor tudo isso ao mesmo tempo fizesse mais sentido, e te ajudasse, e me ajudasse.
mas essa regra é muito chata então despensei e aqui está.

vou tirar todo esse apelo natural sabe..
CHEGA, natureza.
não chega de natureza, mas chega na natureza
tanto a verde, colorida, viva ou morta, de mistérios que eu não canso de observar,
e tentar copiar no bater de asas, nos pingos perfeitos, nas cores inéditas,
quanto a quente e a de dentro, a cor de carne,
que carrega tanto mais que eu não sei mais separá-la de nada; doce habilidade.
talvez vivendo e vibrando com essa natureza humana atirada à parede em largas pinceladas,
eu consiga reproduzir a velha façanha infantil.

ao invés de fazer um simples rascunho, vou parir agora mesmo,
e assim deixo isso aqui agora então como uma promessa e uma cobrança.
duas coisas das quais eu sempre quis duvidar e por 'fim' decidi que não acredito mesmo...
que comece a brincadeira:

testando*

quarta-feira, dezembro 29

natureza, morta?

passando pela praça e vi, eu vi.
dois troncos caídos, mortos, contorcidos.
envolvidos num abraço de amor tão perpétuo como nunca foi visto antes.
daqueles galhos que apodreciam, vazava uma vontade de vida e de ser no outro tão grande
que mesmo sem aquela, esta era. estava ali.
de alguma forma aquela energia forte de uma planta pulsava naquele abraço em decomposição.
mas não era feio.
os galhos contornando os desenhos um do outro, desenhando no verde da grama e no azul do céu que se fez pano de fundo arabescos inéditos, faziam sorrir.
e enquanto tentava existir ali o que não podia ter sido, o que raízes perversas separaram por anos e anos, (no que eu classificaria como uma missão muitíssimo bem sucedida), os figurantes roubavam a cena.

é, é tão bonito ver algum amor.
um deles nascia há poucos metros. já ouviu-se dizer que eles sugavam das cascas shakespearianas toda aquela energia, mas na verdade simplesmente eram jovens e eram.
e o mundo era só deles.
e quem passasse entenderia, e entendeu.
não há o que esconda aquela entrega, que disfarçou sua efemeridade de uma vontade imensa, e fez sorrir.
e me fez querer que passasse por aqui uma brisa daquelas, que abraça, que leva, que faz-nos deixar sermos levados.
mas preciso mesmo é de um vendaval.
a esperança que não vivia mais nas folhas das árvores, postumamente realizadas, emanava do verde da camisa que ele usava, e do brilho do sorriso da menina, e deu pra pensar que naquele momento, amor era aquele. amor era aquilo. e era os dois, e era tanto, e era tudo!
e ainda assim não era eu, porque não digo meu. algo tão forte e majestoso jamais caberia num atestado de posse.

e talvez o espelho funcione agora,
e por trás de toda a fumaça velha que insiste em se acumular,
vislumbrei aqui, quem sabe, a centelha nascendo, e orei.
pra que ela saiba abocanhar com ferocidade o fogo, de lágrimas ou línguas, que a faça viver mais.